Doma?

Doma?

Redigido entre 3 e 4 de agosto de 2014. Ainda não revisado.
Postagem de redação tardia. Embora seja a primeira postagem é a segunda redação. O texto inaugural do blog está na segunda postagem.

Doma, segundo o dicionário Aurelio, é ato ou efeito de domar.
Domar é:
1. amansar; domesticar
2. vencer; subjugar; sujeitar
3. refrear; reprimir; conter.

   Procurando na internet encontrei uma definição curiosa, algo como "domesticação de animal indócil". Não encontrei nenhuma definição que seja adequada à realidade da doma.
   Eis um sinal dos tempos: a palavra doma não mais serve para o ato de domar, desde que a doma seja praticada de forma adequada.
   Até certa época há pouco passada, a doma era, de fato, um embate entre fortes, por meio do qual o homem buscava dominar o animal.
   Embora em incontáveis lugares a doma "antiga"; "bruta", ainda seja a realidade, as técnicas inteligentes e a própria inteligência da doma se espalham numa marcha cada vez mais intensa e são desejadas por todos os cavaleiros, até mesmo nos mais remotos paradeiros.
   A noção do termo "doma" e a noção do ato de domar, originalmente, remetem à ideia do enfrentamento entre o homem e a besta, da coragem, da valentia.
   A certa altura surgiu a expressão "doma racional", que seria uma doma na qual entrava em cena a racionalidade do homem, prometendo jogar na lata do lixo da história o drama da violência que se praticava contra os animais durante a doma normal (que passou a se chamar doma antiga), e, por consequência, também iria facilitar enormemente o trabalho do domador.
   A expressão "doma racional" se transformou num slogan com excelente apelo de venda, e surgiram inúmeros cursos de doma em todos os lugares. Ensinar os domadores a domar pelo método racional veio a ser uma nova atividade lucrativa para os domadores de vanguarda.
   A palavra doma nunca mais seria a mesma. Tinha-se que saber se a doma era antiga ou se era racional. E persiste até hoje essa questão: qual é a doma? É a doma racional ou é a doma antiga?
  Além disso, como chamar de antigo algo que era, e que, infelizmente ainda é atual? Sim, infelizmente ainda existe muita doma bruta - outro nome daquela velha, única e de todos conhecida doma.
  Entretanto, a expressão "doma racional" perdeu glamour, perdeu apelo de venda e perdeu credibilidade. Fato a se lamentar, pois é uma excelente expressão.  Muitos domadores, portando seus certificados de comparecimento a cursos de doma racional, continuaram a domar os seus animais com boa parte da brutalidade de sempre, e alguns deles chegaram até a oferecer seus próprios cursos de "doma racional", que, do quesito "racional" nada tinham.
   Ponto para a ignorância. Um certificado de comparecimento não é, nunca foi, uma garantia de bom aproveitamento, um atestado de capacidade. Mas foi exatamente dessa forma que os certificados foram interpretados. Assim, a "doma racional" virou uma aberração, uma espécie de violência científica. Domadores "com curso" e domadores "instrutores" espancando cavalos por aí afora acabaram deixando a impressão de que a tal "doma racional" não passava de uma farsa.
   Mas, por outro lado, depois de passada a euforia e depois de curtida a decepção, viu-se que a semente da doma melhor, harmônica, amistosa, eficiente, mais segura, e menos violenta havia germinado e crescido. Sem nenhum nome específico da doma em si, passou a valer a qualidade do domador sob esses referenciais. Alguns domadores eram bons. E, entre esses, alguns domavam cavalos para competições. Estes eram, para o caboclo, seres elevados, sumidades.
   Eis que, correndo por fora, o conhecimento da doma racional persistiu e ganhou terreno. Livrou-se do desacreditado termo "racional" ao se apresentar, e voltou a surgir por intermédio daqueles que eram verdadeiramente bons, aqueles que realmente assimilaram pelo menos parte das técnicas desenvolvidas através do conhecimento do animal.
   Aos poucos, os domadores vão assimilando a técnica, ainda que muitos não compreendam o seu fundamento. Mas a notoriedade da melhor qualidade, e a obrigação de evitar os maus tratos, cada vez mais impõem aos interessados a nova doma, a boa doma. Hora ela é chamada de "doma natural" por respeitar e por fazer uso da natureza do animal, hora ela é chamada de "doma inteligente", porque o domador usa a sua inteligência para conseguir fazer a coisa "certa", hora ela é chamada de doma isso ou doma aquilo. Nome de doma é o que não falta. Aqueles que dão aula de doma comercialmente estão sempre em busca de um nome de impacto para o seu curso, para a sua doma.
   No fim das contas, a palavra doma continua trazendo a ideia do confronto, mas, quando complementada por um adjetivo, passa a significar a transformação de um animal xucro em um animal domesticado e útil, com o emprego de algum recurso especial que, entre outros benefícios, dispensa a violência do processo primitivo.
   Só que por um tempo apenas. Com a implacável evolução dos usos, dos costumes, do conhecimento, e dos padrões, ao idioma resta somente evoluir. E, como muito do que um dia foi vanguarda, hoje é comum e amanhã vai ser regra, a boa doma virá a ser a única doma, dando novo significado à palavra doma, deixando para trás os adjetivos.
   Estará confinada aos anais da evolução linguística a noção de enfrentamento, de indocilidade do animal, de confrontação de forças. Hoje, e ainda por algum tempo, essa noção será expressa pela composição da "doma" com os adjetivos antiga ou bruta, mas, no longo prazo, ela tende a ser esquecida.
   Doma será simplesmente "domesticação e adestramento de animais, em geral os de sela". Só.   

Acerto De Contas

O Dia Em Que Paguei Caro Por Ter Abandonado A Mula

   Tenho uma mula.
   Há duas semanas fui pegar ela no pasto. Fui  buscá-la a pé, levei só o cabresto. Nada de tocar a tropa para a mangueira. Deu certo, mas precisei de umas três horas para conseguir. Afinal, eu deixei a minha mulinha um tempão sem atenção. Ela tinha razão de estar triste comigo. Depois de três anos abandonada pelo dono, três horas de canseira foi uma penitência até que suave.
   A empreitada foi um desafio. Simples e monótono na aparência, complexo no conteúdo. O sucesso não estava garantido até que eu a tivesse no cabresto, independente de quento tempo eu "perdesse" tentando.
   Se alguém tivesse "assistido o trabalho", enxergando o que acontecia "por dentro" da situação, certamente iria curtir cada lance, como se fosse um jogo de futebol, sem saber qual seria o resultado. Por outro lado, se alguém tivesse "visto eu andando prá lá e prá cá no pasto, por três horas, atrás de uma mula", estaria enxergando somente o que aparece por fora. Talvez desconfiasse do meu juízo ("O cara é um louco, um lunático!") ou, pelo menos, ficaria inconformado. Nesse caso ele faria uma pergunta: Ora, por que motivo eu fiz questão de pegar o animal no pasto, do jeito mais difícil? Por que eu não fiz o que seria mais rápido e mais fácil, ou seja, tocar a tropa para o curral e lá pegar a mula em um minuto?
   Eu tinha dois motivos. Um menor e outro maior.
   O motivo menor era o desejo de evitar o envolvimento de outras pessoas e o uso da infraestrutura. A mula está hospedada na fazenda vizinha. Para usar o curral e tocar a tropa eu precisaria pedir licença e estaria sujeito à conveniências externas ao meu trabalho. Se eles fossem usar o curral, por exemplo, o meu serviço já começaria melado. Além disso, um pedido desses não sairia sem uma meia hora de bate papo, no mínimo. Coisa gostosa para um domingo de sol como aquele, mas que eu não desejava pois tinha outros objetivos.
   O maior motivo para encarar a tarefa de ir buscar a mula no pasto, sabendo que ela não ia gostar, e sem a certeza de conseguir, era a oportunidade de reaproximação entre eu e a mula, que só essa atitude podia proporcionar. Ao perseguir a mula pelo pasto até que ela me desse permissão para pegá-la, pude mostrar para ela que a minha determinação por ela era pelo menos do tamanho do teste que ela me impôs. Dentro dela pode ter funcionado assim: "Bom, se ele ficou firme já por três horas e ainda me quer, então, eu acredito que ele me quer de verdade! Talvez, daqui prá frente, ele não me abandone mais." Além disso, eu estaria construindo a maior facilidade para pegá-la nos próximos dias. Assim, quando eu chegasse no pasto para pegá-la dali em diante, ela já saberia que seria inútil fugir, pois eu já tinha provado que não desistiria. Sendo assim, "para que ficar andando à toa pelo pasto? Melhor seria ir logo para o serviço, pois quanto mais cedo começa, mais cedo termina". Então, o tempo para pegá-la ficaria mais curto a cada dia.
   Esse motivo maior é componente de um dos princípios da iniciação natural: Nós, cavaleiros, temos que ter competência suficiente para criar com o cavalo uma confiança, senão uma amizade, que nos possibilite, a qualquer tempo e em qualquer lugar, a aproximação e o contato com o animal, independente de termos condições favoráveis ou não.
   Quando o cavalo está solto no pasto temos a situação mais difícil de aproximação e contato. Se conseguirmos pegá-lo nessas condições saberemos que nosso trabalho, até então, não foi ruim. Saber que o nosso cavalo nos deixa pegar quando está livre é fundamental, pois sempre pode acontecer de o cavalo se ver solto em hora e local errado, e nessas ocasiões, apanhá-lo é questão de segurança.
   Essa mulinha foi iniciada por mim entre 2009 e 2010. Comprei ela novinha, em ponto de doma, nunca cabresteada. Ela era brava! Eu nunca tinha domado muares, mas tinha um palpite de que o meu método funcionaria com eles perfeitamente. Queria checar o meu palpite, por isso comprei a mula. A doma foi um sucesso! Foi o primeiro animal em que apliquei os conceitos da "doma índia" que aprendi numa demonstração do fabuloso Oscar Scarpati. Durante o ano de 2010 eu e a mula estivemos bastante juntos. Fizemos passeios e participamos de cavalgadas. Nos anos de 2011, 12 e 13 não consegui tempo e nem local favorável para montar a mula. Agora, quem sabe, voltamos à ativa.
   Voltando ao dilema de buscar a mula a pé, no pasto. Se ela fosse um animal não suficientemente iniciado eu poderia fechá-lo no curral para pegar. Mas era uma mula pronta. (É certo que era uma mula pronta que tinha uma dívida a cobrar!)  Naquela situação, tocar a tropa para pegar um animal manso seria mera lambança. O pasto em que estava é pequeno e fica perto. Ir até lá a pé é mais rápido do que ir a cavalo, pois o tempo de pegar o cavalo e arreá-lo é o tempo de chegar lá andando a pé. Trazer a tropa tocada requer duas correrias até o pasto se for deixar a tropa solta, que nesse caso seria o correto. Numa situação normal de buscar um animal manso naquele pasto, o mais adequado é ir a pé e voltar montado no pêlo, guiando com o cabresto.
   Toda vez que se vai ao pasto a pé, com um cabresto, para buscar um cavalo, está sendo posta à prova a qualidade de todo o trabalho feito com o animal até então. Se ele não se deixar pegar sabe-se que o cavaleiro vem trabalhando errado.
   É por todos esses motivos que pegar a mula daquela vez foi uma aventura. Foi dureza, mas também foi emoção.
   Depois de caminhar até o pasto da tropa e lá no pasto caminhar mais um pouco até encontrar a tropa, avistei a mulinha. Lá fui eu em sua direção com objetivo de pegá-la, mas ela não queria que eu chegasse nem perto, e já foi se afastando. Eu continuava caminhando em sua direção e ela continuou se afastando. E assim foi. E foi. E foi. E não acabava nunca! Fiz questão de deixá-la bem à vontade. Sem procurar cantos para encantoá-la, sem obstruir-lhe a passagem, sem me aproximar quando fazia suas necessidades.
   Entretanto, não lhe permitia ter o sossego para pastar, para comer. Essa era uma pequena coerção da qual fiz uso, e que funcionou como um fator de desânimo para a sua fuga. Um fator homeopático mas efetivo, porque lhe tirava o valor a fuga. Embora pudesse fugir, após a fuga não alcançava a tranquilidade. Mesmo permanecendo livre, não estava livre para comer. Assim, a partir de um certo ponto ficaria menor o prejuízo de se deixasse pegar, em comparação com a perspectiva de ficar até o fim do dia com "esse chato atrapalhando o meu sossego".
   A certa altura da calma perseguição à mulinha, passou pelos meus pensamentos o comparativo de forças em disputa. Ela tinha a seu favor o espaço, a força e velocidade, e a sua vontade. Eu tinha a meu favor a esperança de que a minha determinação superasse a dela, a minha estratégia e o palpite de que ia dar certo.
    E afinal, deu certo. Quando ela se dirigiu para o tanque de água, um mini-açude, uma represinha, eu sentei para descansar numa sombra próxima enquanto ela matava a sede. Essa represinha fica junto a uma cerca, e morro abaixo há um declive acentuado fechado em mata. A barragem funciona então, quase como uma rua sem saída. Uma ponta tem acesso fácil; direto, a outra é cortada pela cerca. A saída "para cima" é dificultada pela água represada e a saída "para baixo" tem mato e barranco. E ela foi justamente lá para o encontro da barragem com a cerca, onde bebeu sua água. Também descansou um pouco e eu aproveitei também para descansar, sentado numa sombra, mais acima.
   Quando ela começou a comer uma graminha que nascia dentro d'água era hora de voltar ao trabalho. Eu, ainda não tinha notado que não seria tão simples para ela escapar de mim naquele local. Ela, com toda a certeza, já sabia disso. Eu desci até a ponta da barragem e sobre ela caminhei naturalmente em direção à mula. Para mim, era o caminho e só. Não me importei com o fato de que se tratava do único caminho fácil.  Quando cheguei perto ela me deixou aproximar, agradar e encabrestar. Sem nenhuma vontade de fugir. Ela era a dona da situação, não eu. Só depois percebi que para sair dali ela teria que encarar uma lama ou um mato ou me atropelar, e ela não estava nem um pouco a fim dessas aventuras. Isso era coisa para animais chucros ou apavorados. Não ela.
   Para mim, finalmente caiu a ficha. Ela já tinha resolvido que ia deixar-se pegar ali na represa antes mesmo de ir para lá! Ficou agradecida por ter bebido água, e devia estar satisfeita com a minha perseverança.
   Deixou-me pegar, simplesmente. Teve um pouco de medo do passar do cabresto por sobre as orelhas, facilmente resolvido com uma maior abertura do cabresto e um gesto mais lento. Nesse tempo em que estivemos afastados ela não esteve completamente sem trabalho, e, com certeza, não souberam lidar direito com orelha dela. Mas o problema com a orelha já desapareceu. Não era grande coisa.

Revisado em 08/07/2014.
Redigido na noite de 10/05/14 e madrugada do dia 11/05/14.
Este texto vem a ser uma nova inauguração desse blog, que criei em 2008 para outros assuntos.
Destaquei em azul os conceitos que são temas de outros textos.
Em itálico estão escritos os supostos pensamentos do animal. É importante tentarmos saber como pensam os animais com os quais estamos interagindo. É o ponto de partida para a obtenção de tudo o que possamos querer que ele faça.